
A crise na saúde pública de São José do Rio Preto ganhou mais um capítulo nesta segunda-feira com a renúncia definitiva do médico Rubem Bottas ao cargo de secretário municipal de Saúde. O anúncio foi feito pelo próprio ex-secretário por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais, no qual afirmou que a decisão foi tomada em conjunto com sua família e aceita pelo prefeito Fábio Cândido. A saída ocorre em meio a um dos maiores escândalos administrativos recentes da área da saúde no município, envolvendo um contrato de quase R$ 12 milhões firmado sem licitação com a Santa Casa de Casa Branca.
Bottas já estava afastado da função desde maio, quando vieram à tona questionamentos sobre o convênio firmado entre a Prefeitura de Rio Preto e a instituição hospitalar localizada em Casa Branca, município da região de Campinas. O acordo previa a realização de um mutirão com 63 mil exames de imagem em apenas três meses por meio de carretas móveis de atendimento.
No entanto, o contrato passou a ser alvo de investigações após surgirem suspeitas de irregularidades na contratação. A situação se agravou no mesmo dia em que a Procuradoria-Geral do Município ingressou na Justiça com uma ação por improbidade administrativa contra o ex-secretário, uma assessora da Secretaria de Saúde e a própria Santa Casa. A administração municipal busca a devolução de R$ 3,8 milhões que teriam sido pagos antecipadamente à entidade e que ainda não retornaram aos cofres públicos.
Além da ação judicial, o caso é investigado por uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) instalada na Câmara Municipal e também por uma sindicância interna aberta pela Prefeitura. O novo secretário de Saúde, Frederico Duarte, passou a conduzir os trabalhos administrativos relacionados ao caso.
Entre os principais questionamentos levantados pelos órgãos de fiscalização está o fato de o contrato ter sido firmado em caráter emergencial, sem processo licitatório. Documentos analisados pelos vereadores apontam que a própria Procuradoria Jurídica do Município havia emitido alertas sobre possíveis falhas e inconsistências no procedimento antes da assinatura do convênio.
Outro ponto que chama atenção é a justificativa para a urgência da contratação. Parlamentares que integram a CEI argumentam que a fila de exames acumulada ao longo de 2025 era uma situação já conhecida pela administração municipal, o que afastaria a caracterização de emergência necessária para dispensar uma licitação.
As investigações também apontam dúvidas sobre a capacidade operacional da Santa Casa de Casa Branca para executar um projeto de grande porte em uma cidade do tamanho de Rio Preto. Informações levantadas durante as apurações indicam que a instituição enfrentava dificuldades financeiras e chegou a sofrer intervenção do poder público local.
A rapidez da tramitação do processo também está sob análise. Segundo os investigadores, toda a documentação necessária para formalização do convênio foi aprovada e assinada em apenas quatro dias. Além disso, especialistas consultados pelos vereadores questionam a viabilidade técnica da proposta, já que alguns dos exames previstos exigem estruturas hospitalares específicas e não poderiam ser realizados em unidades móveis adaptadas.
As apurações revelaram ainda divergências entre depoimentos prestados durante as investigações. Enquanto Rubem Bottas afirmou ter procurado hospitais de referência da região, incluindo o Hospital de Base, representantes da instituição negaram publicamente terem sido consultados sobre a realização do mutirão.
Fora do governo municipal, Bottas afirmou que pretende retomar integralmente suas atividades na medicina privada. Enquanto isso, a Justiça, a Câmara Municipal e os órgãos de controle continuam analisando documentos, contratos e movimentações financeiras para identificar eventuais responsabilidades e apurar os prejuízos causados aos cofres públicos. O desfecho do caso poderá ter impactos não apenas na gestão da saúde municipal, mas também no cenário político de São José do Rio Preto.